Antes de defendermos um governo, que sociedade estamos escolhendo construir?
E, é justamente pelo respeito a essa diversidade que me permito a uma reflexão que vai além do consultório e vislumbra nossa vida em sociedade.
Assim, em tempos de eleições, de polarização política, me pego a refletir sobre questões que ultrapassam partidos e candidatos.
Observo muitas pessoas a priorizar um governo, com a argumentação de que a defesa está sobre as políticas públicas. E essa postura me faz pensar: estamos avaliando de forma significativa essas políticas públicas em toda a sua dimensão?
Vimos políticas públicas como ações, programas e serviços que o Estado desenvolve para acolher às necessidades da população. Esta atuação envolve educação, saúde, trabalho, segurança, moradia, assistência social e muitas outras áreas que afetam nosso dia a dia.
É obvio que um benefício social pode aliviar a fome, como um emprego pode devolver autonomia, que uma escola pode transformar um futuro e, que um serviço de saúde pode preservar e cuidar de vidas. Tudo isso importa, e muito.
Porém, temos aqui uma dimensão que não se pode ignorar. Nenhuma dessas ações, isoladamente, respondem a todas as necessidades humanas.
Uma sociedade não se constrói apenas com o que se distribui, mas principalmente com o que se ensina, permite, tolera e valoriza.
Podemos e devemos defender direitos sociais, no entanto, também devemos questionar comportamentos que ferem a dignidade das pessoas. Podemos e devemos reconhecer a importância das ações sociais, porém sem transformar as pessoas em indivíduos passivos diante da própria existência. Como também, podemos e devemos cobrar a responsabilidade do Estado, sem entregar a ele ou a qualquer partido/figura política, a responsabilidade total do rumo de nossas vidas.
E, é nesse ponto que sinto a necessidade de ampliar a reflexão.
Tendo como base de que a integridade de uma pessoa não deve estar unicamente ancorada nos preceitos que ela defende, mas também no quanto esse comportamento está coerente com suas convicções e atitudes. Do quanto a sua lealdade a um grupo venha a se tornar mais importante do que a honestidade.
O fato é que, quando justificamos atitudes que condenaríamos em nossos adversários, dispensamos um princípio essencial: a responsabilidade na autonomia por nossos próprios pensamentos.
Então, acreditar que a outra pessoa se torna nosso inimigo pelo fato de ter uma visão de mundo diferente, perdemos a oportunidade de construção de uma sociedade onde as diferenças não precisam ser entendidas como hostilidade.
A restauração de uma sociedade se inicia na possibilidade de restauração da pessoa em sua própria consciência.
Não falo de pessoas perfeitas, autossuficientes ou isoladas das questões do coletivo. Somos seres relacionais, que dependemos uns dos outros, das instituições, das oportunidades e das condições concretas de que vivemos.
Mas não podemos confundir dependência com responsabilidade.
Não controlamos tudo que nos acontece, mas não podemos renunciar a nossa consciência, a nossa capacidade de escolha e a nossa responsabilidade diante das consequências de nossos atos.
Essa construção exige autoconhecimento, a coragem para rever crenças e contradições, como também o abandono de crenças que já não fazem sentido para nosso momento atual. E, exige ainda, compreender de que nenhuma ideologia possa afastar do exercício de nossa consciência.
Sim, uma democracia comprometida com o desenvolvimento precisa de políticas públicas, instituições responsáveis e de direito assegurados, mas também se faz necessário de pessoas com capacidade de pensamento crítico, respeitando limites, reconhecendo a dignidade alheia sem confundir pertencimento político com verdade absoluta.
Não precisamos concordar com tudo, mas se faz necessário preservar aquilo que torna possível continuarmos vivendo juntos.
Talvez o que seja mais importante, neste momento, não seja qual governo defendemos, mas sim, quais valores estamos dispostos a preservar, inclusive quando esses contrariam os interesses do grupo ao qual pertencemos.
Que pessoas estamos escolhendo ser para a construção do país que desejamos construir?
Porque a transformação social não é apenas responsabilidade de quem governa, mas ela também acontece nas relações que estabelecemos, nas escolas que fazemos, nas atitudes e na coragem de não terceirizar essa responsabilidade.
Que não entreguemos a governos, partidos ou líderes, a tarefa de pensar, escolher e responder por nós.
Defender nossos direitos sem renunciar a nossos deveres, de nossas convicções sem abandonar o pensamento crítico e de nossa liberdade sem esquecer a dignidade do outro é o combustível para construção uma sociedade mais justa.
Essa construção começa em cada pessoa disposta a viver os valores que diz defender.
Por: Laura Cristina Stefanelli Roma - Psicóloga Clínica - crp 06/43.383
