"Eu durmo com os seus olhos"
por:@laura stefanelli
Hoje, atualizando conversas e reflexões com uma amiga querida, que lá no sertão (Balsas/MA) deixei, ela relatou ter adormecido na noite anterior e que, ao colocar as crianças para dormir, seu filho de quase 8 anos solicitou sua companhia, justificando com a frase: "eu durmo com os seus olhos."
Que expressão mais pura e infantil! Linda e apavorante.
Linda porque me trouxe lembranças queridas de um relacionamento que tive, que quando eu chegava em casa exausta de tantas emoções compartilhadas com meus clientes, na clínica, ele preparava o jantar e depois acalentava o meu sono, segurando minha mão e aguardando o embalar de meu descanso.
Muito provavelmente, nesses momentos eu resgatava minhas vivências infantis, onde eu adormecia sob o olhar de minha mãe.
Linda porque hoje, adulta, sei bem que o ato de adormecer sob a vigilância e companhia do outro é o ato de maior confiança que se pode ter no relacionamento com outro.
Dormir ... a mais pura e genuína experiência de quase morte!
Quem já passou por algum processo cirúrgico, mediante anestesia geral, sabe bem o que estou aqui escrevendo.
Dormir sob a vigilância do outro é despir-se de toda a defesa, na plena certeza do vigiar responsável de nosso sono.
Agora, o apavorante está na provável dependência emocional que essa experiência possa nos manter.
Sim. Mantermo-nos refém do olhar do outro!
É claro que quando crescidos somos plenamente capazes de adormecer por adormecer.
Hoje fala-se muito do cultivo da solitude.
Mas, não seríamos nós seres emocionais passíveis da necessidade de troca de afeto sincero?
Sinto um acalento enorme na agradável experiência de "dormir sob o olhar do outro", sem a dependência ou condição para, mas simplesmente pelo prazer de me despir de qualquer defesa em estar com o outro.
Desejo que sua alma já tenha assim se entregado ou, um dia, ainda possa se entregar e adormecer confiante sob o olhar do outro.

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