_ A Chupeta na Vida Adulta

 Chupeta na vida adulta ... quando a ansiedade busca um colo que faltou

por:@laura stefanelli

Imagine assistir um vídeo nas redes sociais e, de repente, notar um adulto usando chupeta.

O primeiro impulso de muitos seria estranhar ou até rir. Mas, e se esse gesto, longe de ser uma excentricidade sem sentido, fosse na verdade um grito silencioso por segurança, calma e acolhimento?

Na psicanálise, nada do que se repete é por acaso. O fato de sugar, tão presente nos nossos primeiros meses de vida, carrega em si memórias profundas de vínculo e regulação emocional.

Quando reaparece na vida adulta, ele pode estar revelando um território interno ainda não explorado - um lugar onde a ansiedade encontra um alívio temporário, mas também onde reside a chave para compreender feridas e necessidades não simbolizadas.

Um retorno à fase oral

Na teoria freudiana, a fase oral é o primeiro estágio do desenvolvimento psicosexual. É nela que o bebê experimenta o mundo por meio da boca, obtendo prazer e segurança ao sugar - seja no seio materno, na mamadeira ou a chupeta.

Esse ato não se limitar à nutrição física; ele é também uma experiência de vínculo, acolhimento e regulação emocional.

Quando, na vida adulta, alguém recorre a um objeto como a chupeta, há uma tentativa inconsciente de reconectar-se a essa sensação de amparo primordial.

O papel dos objetos transicionais

Donald Winnicott, psicanalista britânico, introduziu o conceito de objetos transicionais - elementos que ajudam a criança a lidar com a ausência da mãe, servindo como ponte entre presença e separação.

Uma manta, um brinquedo, um ritual... todos podem cumprir essa função. 

Na vida adulta, a chupeta pode assumir exatamente esse papel: um recurso concreto para acessar memórias emocionais profundas, mesmo que não conscientes.

Não é regressão, é expressão

O uso da chupeta, nesse contexto, não precisa ser visto como infantilização ou retrocesso. Ele pode ser entendido como a expressão visível de uma necessidade interna que ainda não encontrou outro canal de simbolização.

É um portal para conteúdos afetivos que aguardam ressignificação.

O espaço terapêutico como lugar de elaboração

Na psicoterapia de orientação psicanalítica, esse gesto pode ser explorado como um caminho para compreender lacunas emocionais: quais angústias ele apazigua, quais lembranças ele reativa e que experiências do passado permanecem vivas na vida psíquica atual.

Ao investigar esse movimento, abre-se a possibilidade de transformar um hábito visto como estranho em uma oportunidade de autoconhecimento e elaboração psíquica.

Conclusão

Ao invés de ridicularizar ou patologisar, é possível olhar para esse fenômeno com curiosidade e respeito.

Muitas vezes, a chupeta na vida adulta é apenas uma ponta visível de um iceberg emocional, um pedido silencioso de cuidado e reconhecimento.

Escutar esse gesto é abrir portas para aquilo que, até então, não havia encontrado palavras.






Nenhum comentário:

Postar um comentário

Publicações

_ Em tempos de Eleições

  Antes de defendermos um governo, que sociedade estamos escolhendo construir? No dia a dia de meu consultório, recebo pessoas com histórias...