Indisciplina Financeira e o "só se vive uma vez": um olhar psicanlítico
A frase "só se vive uma vez" muitas é usada como justificativa para gastar além das possibilidades, satisfazer desejos imediatos e deixar o futuro para depois.
Mas o que está em jogo quando alguém se apoia nesse pensamento?
A psicanálise nos ajuda a compreender que não se trata apenas de números, mas de uma forma de lidar com o desejo, com a lei e com os limites da vida.
O dinheiro como significante do desejo
Na psicanálise, o dinheiro não é apenas recurso material: ele simboliza poder, amor, cuidado e até reconhecimento.
Gastar sem medida pode ser um modo inconsciente de buscar preencher vazios, acalmar angústias ou reafirmar um sentimento de valor pessoal.
O ato de consumir, nesse caso, não se reduz ao objeto comprado, mas carrega um investimento afetivo.
A fantasia da onipotência
Quando a pessoa gasta acreditando que "fim do mês vai dar certo", está preso em uma fantasia de onipotência: uma crença de que no futuro sempre trará recursos suficientes, mesmo sem planejamento.
Essa ilusão revela a dificuldade de lidar com a castração - no sentido psicanalítico - , ou seja, a impossiiblidade de satisfazer todos os desejos ao mesmo tempo.
Ao invés de elaborar a falta, prefere-se negá-la. O gasto impulsivo é, então, uma recusa simbólica do limite.
Princípio do prazer X Princípio da realidade
Freud descreveu que nossa vida psíquica é atravessada por duas forças o princípio do prazer , que busca satisfação imediata, e o princípio da realidade, que nos ensina adiar prazeres para garantir uma existência possível e menos conflituosa.
Na indisciplina financeira, o princípio do prazer predomina: "eu quero agora". Mas, quando a fatura chega, o real do limite se impõe, e com ele vêm a angústia, a culpa e, muitas vezes, a repetição do ciclo do endividamento.
O exemplo da pessoa disciplinada
É interessante notar como muitas pessoas - mesmo sem estudo formal, com poucos recursos e muitas responsabilidades - conseguem criar filhos, manter uma vida digna.
Esse saber prático não vem de cálculos complexos, mas de uma internalização simbólica do limite.
_ separar o que é essencial do que pode esperar;
_ renunciar a alguns desejos em prol de outros mais importantes;
_ planejar o futuro sem depender da fantasia de abundância infinita.
Essa pessoa, em sua sabedoria cotidiana, encarnam o princípio da realidade.
Mostram que é possível viver com prazer, mas dentro do que é viável.
O contraste entre gerações
Muitos filhos, ao se compararem com seus pais, dizem:
"Eles conseguiam viver bem com pouco, eu ganho mais e não guardo nada."
Esse contrste evidencia que a questão não é apenas de renda, mas de estrutura psíquica.
Onde uma introjetou o valor do limite, o outro pode ter se deixado capturar pela ilusão do "tudo agora".
O convite da psicanálise
Do ponto de vista clínico, trabalhar a indisciplina financeira não é apenas ensinar planilhas ou técnicas de controle de gastos.
É oferecer à pessoa um espaço para:
_ reconhecer a função inconsciente que o dinheiro cumpre em sua vida;
_ elaborar a relação com o limite e a frustração;
_ sair do ciclo da repetição, em que prazer imediato gera culpa e dívida;
_ responsabilizar-se por sua economia psíquica e material.
Conclusão
A indisciplina financeira é, antes de tudo, uma questão de desejo e lei interna.
Viver bem não significa ceder a todos os impulsos, mas aprender a escolher, renunciar e planejar.
O exemplo dos pais disciplinados nos mostra que, ao aceitar limites, é possível conquistar liberdade: a de envelhecer com tranquilidade, autonomia e dignidade.
Talvez a verdadeira pergunta não seja se "só se vive uma vez", mas como queremos viver essa única vida: presos ao ciclo da dívida ou sustentados pela liberdade que o limite proporcional?
Por Laura Steffanely, Psicóloga Clínica - CRP 06/43.383

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