_ Indisciplina Financeira: Um olhar psicanalítico

 Indisciplina Financeira e o "só se vive uma vez": um olhar psicanlítico

por:@laura stefanelli

A frase "só se vive uma vez" muitas é usada como justificativa para gastar além das possibilidades, satisfazer desejos imediatos e deixar o futuro para depois.

Mas o que está em jogo quando alguém se apoia nesse pensamento?

A psicanálise nos ajuda a compreender que não se trata apenas de números, mas de uma forma de lidar com o desejo, com a lei e com os limites da vida.

O dinheiro como significante do desejo

Na psicanálise, o dinheiro não é apenas recurso material: ele simboliza poder, amor, cuidado e até reconhecimento.

Gastar sem medida pode ser um modo inconsciente de buscar preencher vazios, acalmar angústias ou reafirmar um sentimento de valor pessoal.

O ato de consumir, nesse caso,  não se reduz ao objeto comprado, mas carrega um investimento afetivo.

A fantasia da onipotência

Quando a pessoa gasta acreditando que "fim do mês vai dar certo", está preso em uma fantasia de onipotência: uma crença de que no futuro sempre trará recursos suficientes, mesmo sem planejamento.

Essa ilusão revela a dificuldade de lidar com a castração - no sentido psicanalítico - , ou seja, a impossiiblidade de satisfazer todos os desejos ao mesmo tempo.

Ao invés de elaborar a falta, prefere-se negá-la. O gasto impulsivo é, então, uma recusa simbólica do limite.

Princípio do prazer X Princípio da realidade

Freud descreveu que nossa vida psíquica é atravessada por duas forças o princípio do prazer , que busca satisfação imediata, e o princípio da realidade, que nos ensina adiar prazeres para garantir uma existência possível e menos conflituosa.

Na indisciplina financeira, o princípio do prazer predomina: "eu quero agora". Mas, quando a fatura chega, o real do limite se impõe, e com ele vêm a angústia, a culpa e, muitas vezes, a repetição do ciclo do endividamento.

O exemplo da pessoa disciplinada

É interessante notar como muitas pessoas - mesmo sem estudo formal, com poucos recursos e muitas responsabilidades - conseguem criar filhos, manter uma vida digna.

Esse saber prático não vem de cálculos complexos, mas de uma internalização simbólica do limite.

_ separar o que é essencial do que pode esperar;

_ renunciar a alguns desejos em prol de outros mais importantes;

_ planejar o futuro sem depender da fantasia de abundância infinita.

Essa pessoa, em sua sabedoria cotidiana, encarnam o princípio da realidade.

Mostram que é possível viver com prazer, mas dentro do que é viável.

O contraste entre gerações

Muitos filhos, ao se compararem com seus pais, dizem:

"Eles conseguiam viver bem com pouco, eu ganho mais e não guardo nada."

Esse contrste evidencia que a questão não é apenas de renda, mas de estrutura psíquica.

Onde uma introjetou o valor do limite, o outro pode ter se deixado capturar pela ilusão do "tudo agora".

O convite da psicanálise

Do ponto de vista clínico, trabalhar a indisciplina financeira não é apenas ensinar planilhas ou técnicas de controle de gastos.

É oferecer à pessoa um espaço para:

_ reconhecer a função inconsciente que o dinheiro cumpre em sua vida;

_ elaborar a relação com o limite e a frustração;

_ sair do ciclo da repetição, em que prazer imediato gera culpa e dívida;

_ responsabilizar-se por sua economia psíquica e material.

Conclusão

A indisciplina financeira é, antes de tudo, uma questão de desejo e lei interna.

Viver bem não significa ceder a todos os impulsos, mas aprender a escolher, renunciar e planejar. 

O exemplo dos pais disciplinados nos mostra que, ao aceitar limites, é possível conquistar liberdade: a de envelhecer com tranquilidade, autonomia e dignidade.

Talvez a verdadeira pergunta não seja se "só se vive uma vez", mas como queremos viver essa única vida: presos ao ciclo da dívida ou sustentados pela liberdade que o limite proporcional?

Por Laura Steffanely, Psicóloga Clínica - CRP 06/43.383






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